Medicina Baseada em Evidencias: Concepcoes e Finalidades
Capitulo sobre os fundamentos da medicina baseada em evidencias, suas concepcoes teoricas e aplicacoes na pratica clinica.
Autores dos capítulos
Debora M. F. Lucena et al.
Organizador da obra — este capitulo integra a coletanea organizada pelo Dr. Jhonas Flauzino.
Objetivou-se apresentar e discutir a caracterizacao da Medicina Baseada em Evidencias (MBE) e a utilidade desta no exercicio clinico. A MBE e definida como a utilizacao responsavel, explicita e fundamentada dos melhores indicadores cientificos para auxiliar nas tomadas de decisoes sobre os pacientes. A pratica medica e entendida como vivencia de relacionamento interpessoal, em que os principios e o conhecimento do medico, juntamente com as escolhas e os desejos dos pacientes, tem atribuicao preponderante. E possivel deduzir que a MBE fornece estrutura conceitual para resolucao de complicacoes clinicas, aproximando os dados da pesquisa clinica a pratica medica.
Medicina Baseada em Evidencias: Concepcoes e Finalidades
**Autores:** Debora Maria Figueiredo Lucena, Jessika Figueiredo Lucena, Alessandra Jespersen de Athayde Rocha, Ana Kiteria Pinheiro Cavalcante, Isadora Teixeira de Freitas Cavalcante, Beatriz Nunes Ferraz de Abreu Zech Sylvestre, Lais de Miranda Sales Rocha
**Palavras-chave:** Medicina Baseada em Evidencias. Pergunta clinica. Pratica medica.
1. Introducao
De maneira bastante regular, os profissionais da medicina sao confrontados com episodios de incerteza na pratica profissional. Ainda, persiste-se determinado grau de oscilacao na pratica clinica, tanto no meio social imediato quanto na esfera nacional e internacional.
Outro ponto e que os avancos tecnologicos vem sendo anexados a rotineira pratica medica, por meio de expedientes nem sempre meticulosos, influenciados por fatores economicos, sociais e culturais. Ao considerar que muitas inovacoes e procedimentos praticados sao beneficos para a saude dos pacientes, e possivel conjecturar que alguns nao trazem benesse e podem ate ser prejudiciais (DRUMMOND, 2014).
Mas, como distinguir um tratamento do outro? Sobre essa questao, de acordo com Alencar Neto (2021, p. 45), pesquisa sociologica com analises sobre a carreira medica expos que os medicos:
- Acreditam no que exercem;
- Preferem agir, mesmo que sua intervencao tenha limitadas chances de sucesso, a ficar na expectativa;
- Enxergam relacoes de causa/efeito mesmo que estas nao existam realmente;
- Se baseiam mais em julgamentos particulares em detrimento de evidencias empiricas;
- Quando as coisas dao errado, geralmente culpam algo generico como a ma sorte.
O exercicio da medicina, como outros pontos da vida contemporanea, e influenciado por questoes cientificas, politicas e economicas, bem como pela vontade de atender as expectativas dos pacientes e, por varias vezes, o bem-estar pode ser desconsiderado a segundo plano.
A presente conjuntura sanitaria, economica e social aumenta, no entanto, a imposicao para fundamentar solidamente as decisoes de medicos, gestores e politicos. Por um lado, eleva o envelhecimento e as expectativas de vida da populacao e, com estes, a demanda por atendimento. Alem disso, os habitos de vida e os parametros de morbidade estao mudando e novas tecnologias e possibilidades de tratamentos e medicamentos estao sendo desenvolvidos. Os custos e as despesas com saude aumentam diante da limitacao de recursos disponiveis (DRUMMOND, 2014).
Tambem nao se pode ignorar a ocorrencia da democratizacao do conhecimento, com maior conexao do paciente as fontes de informacao, com o consequente declinio do sistema paternalista de relacionamento medico-paciente e a, cada vez mais, gradativa autonomia deste ultimo. Para esses motivos, torna-se necessario apresentar as razoes das recomendacoes e decisoes medicas com base em evidencias cientificas externas verificaveis e demonstraveis (GREENHALGH, 2015).
O presente artigo utiliza a tecnica da pesquisa teorica, cuja abordagem e a qualitativa. Os materiais utilizados para coleta de dados sao de fontes secundarias: livros, artigos e demais materiais, tanto fisicos como os publicados em bases de dados eletronicos.
2. Recorte Historico
Ao longo da historia, a comunidade medica reiteradamente se interessou e se esforcou por proporcionar o melhor aos pacientes. No entanto, a todo tempo, a pratica clinica tem sido substancialmente empirica, fundamentada em conhecimentos anatomicos e fisiopatologicos, bem como no senso comum, mas com teorias nem sempre verificaveis ou reprodutiveis (KAURA, 2016).
A aplicabilidade de metodologias objetivas ou sistematicas para qualificar os resultados das inumeras acoes e relativamente recente. No final do seculo XVIII e comeco do seculo XIX, o medico Pierre Louis empregou, pela primeira vez, nas observacoes clinicas, um metodo estatistico para quantificar a eficiencia da sangria em enfermos com pneumonia, erisipela e faringite, sem encontrar distincoes em relacao a outras terapias. Este medico considerado revolucionario foi responsavel pela criacao de um movimento chamado medecine d'observation, que colaborou para extincao de tratamentos sem utilidade, como a sangria que, ate entao, era aceita como metodo clinico veridico (DRUMMOND, 2014).
Entretanto, somente em meados do seculo XX, com a introducao e utilizacao continua do metodo cientifico, comecou a desenvolver-se um tipo de medicina considerada mais sistematica, que procurava basear-se em provas objetivas, verificaveis, reprodutiveis e abrangentes (DRUMMOND, 2014).
Logo, as intervencoes sistematicas de saude, embora de eficacia duvidosa, comecaram a ser questionadas e submetidas a apuracao. Estima-se que pelo menos 20% das praticas comuns sao empiricas e nao se avaliam as bases cientificas destas. No final do seculo XX, surgiu a epidemiologia clinica, voltada para o estudo dos efeitos e determinantes dos pareceres clinicos (BRASIL, 2021).
Em consonancia com os avancos na pratica medica, o termo Medicina Baseada em Evidencias (MBE) foi empregado pela primeira vez em 1991, por Gordon Guyatt. Ano seguinte, o primeiro grupo de trabalho em MBE foi constituido no Canada (KAURA, 2016).
Assim, Guyatt definiu pela primeira vez um conceito que exige que apenas os fatos provenientes de metanalises, revisoes sistematicas e ensaios clinicos randomizados possam gerar recomendacoes medicas (KAURA, 2016).
Com a MBE, Guyatt propos uma mudanca no modelo ou paradigma de aprender e praticar a medicina. O objetivo e que a atividade medica diaria seja baseada em fundamentos cientificos de estudos da melhor qualidade metodologica. A pratica da MBE, portanto, exige a integracao da experiencia clinica individual com os melhores dados objetivos, considerando os valores e as preferencias dos pacientes (KAURA, 2016).
3. Compreendendo a MBE
A MBE pode ser definida, em linhas gerais, como a utilizacao consciente, manifesta e ponderosa das melhores evidencias cientificas a disposicao para tomada de decisoes sobre os pacientes. Ressalta a relevancia de examinar as evidencias da pesquisa cientifica e minimiza o procedimento da intuicao, da experiencia clinica nao sistematica e do raciocinio fisiopatologico como razoes suficientes para tomada de decisoes clinicas (PEREIRA; GALVAO; SILVA, 2016).
A MBE, da mesma forma, foi definida como a incorporacao da experiencia clinica pessoal com as melhores evidencias externas disponiveis de pesquisas sistematicas. A pratica clinica medica e compreendida como uma experiencia de relacionamento interpessoal, em que os principios, as conviccoes e a experiencia do profissional, juntamente com as preferencias dos pacientes, tem papel preponderante (DRUMMOND, 2014).
A experiencia clinica, percebida como a autoridade gradativa de conhecimento e o julgamento que cada profissional da area atinge, por meio da experiencia medica, incide-se, principalmente, na competencia de chegar a um diagnostico preciso e identificar e englobar os problemas, circunstancias e preferencias de cada pessoa enferma (ALENCAR NETO, 2021).
A MBE concebe o metodo cientifico como a mais apropriada metodologia disponivel na atualidade para conhecer a realidade e expressa-la de forma inteligivel e precisa. Contribui para o desenvolvimento de uma forma de raciocinio e um metodo que busca transformar as referencias clinicas em conhecimento cientificamente valido, estatisticamente meticuloso e clinicamente proeminente para a pratica medica vigente (ALENCAR NETO, 2021).
Em momento algum, tenciona-se estimular uma atitude fundamentalista que valoriza apenas os ensaios clinicos e as metanalises, e que, de algum modo, ignore outros estudos e aspectos da pratica medica. A atividade clinica e mais complexa do que o acompanhamento exclusivo e dogmatico das evidencias (BRASIL, 2014).
4. Expectativas e Limitacoes sobre a MBE
A MBE pode ser um elo forte para integracao oportuna de novos e uteis conhecimentos biomedicos na pratica medica diaria. Varios dos tratamentos considerados eficazes na pratica pediatrica atual, como o uso de esteroides pre-natais para reduzir a morbimortalidade do recem-nascido pre-termo, a posicao de decubito dorsal para prevenir a sindrome da morte subita infantil ou o manejo de fluidos e eletrolitos, levaram pelo menos duas decadas para serem implementados na rotina diaria (DRUMMOND, 2014).
Uma vez que a MBE engloba as melhores e mais recentes informacoes biomedicas no processo de decisao clinica, pode ser estrategia logica para encurtar o tempo de aplicacao do conhecimento cientifico util em beneficio do paciente na pratica.
A MBE favorece a pratica da medicina centrada no paciente. Assim, o esforco do medico em realizar uma pratica que coloque honestamente a perspectiva do paciente em relacao ao proprio problema de saude-doenca antes de qualquer outro interesse, pode ser fator para melhorar a qualidade da pratica clinica (KAURA, 2016).
A MBE nao substitui a competencia clinica, o sentimento de simpatia ou o julgamento clinico responsavel, uma vez que a base da medicina e a interacao entre os seres humanos pela saude.
5. Realizacao e Aplicabilidade da MBE
A finalidade da MBE e que os profissionais medicos, alem da experiencia e das atribuicoes clinicas, saibam aplicar adequadamente os resultados da pesquisa cientifica a pratica medica, a fim de aperfeicoar a eficacia e qualidade.
Os medicos atualizam o conhecimento basicamente a partir da literatura cientifica, livros e revistas que apresentam os resultados e avancos das pesquisas. No entanto, a quantidade dessas publicacoes e avultada. Os buscadores eletronicos tem viabilizado muito o acesso a esse extenso volume de conteudo bibliografico cientifico, mas nao certificam a descoberta de todas as informacoes em dominio publico (GREENHALGH, 2015).
A MBE propoe abordagem estrategica ao universo da informacao biomedica que permite a identificacao rapida e precisa daquilo que e relevante para resolucao de um problema clinico.
Conforme Stein (2019), o processo de integracao da evidencia cientifica esta sintetizado da seguinte forma:
- Reconhecimento e identificacao de hiatos de conhecimento em relacao as decisoes clinicas;
- Formulacao de uma pergunta clinica bem estruturada;
- Investigacao eficiente da melhor evidencia que esta a disposicao;
- Analise critica da qualidade da evidencia;
- Avaliacao rigorosa dos resultados dos estudos;
- Aplicacao dos resultados para tomada de decisao referente a um paciente especifico.
Em consequencia da investigacao de um estudo, o profissional medico deve se fazer tres perguntas consideradas importantes: 1) Quais sao os resultados do estudo? 2) Esses resultados sao realmente validos? e 3) Esses resultados irao me auxiliar a tomar decisoes sobre meu paciente? (ALENCAR NETO, 2021).
Ha tres etapas necessarias em que a MBE se desenvolve:
**1) Aplicabilidade individual das concepcoes basicas da MBE** — Formular uma questao clinica, procurar a informacao correspondente, analisa-la criticamente e ajusta-la as necessidades especificas do paciente em foco (DRUMMOND, 2014).
**2) Consulta de revisoes sistematicas disponiveis** — A pouca disponibilidade de tempo para realizar um amplo processo de pesquisa e analise de informacao, a elevada quantidade de fontes e as publicacoes originais sobre uma tematica especifica tornam as revisoes sistematicas extremamente uteis, pois apresentam todo o processo integrado e sintetizado (DRUMMOND, 2014).
**3) Aplicacao de diretrizes de pratica clinica** — Podem ser definidos como instrumentos que visam transferir as evidencias cientificas para as particularidades de cada paciente e ao ambiente em que a pratica clinica e desenvolvida (DRUMMOND, 2014).
6. Conclusao
O objetivo desta revisao foi apresentar o potencial da MBE, o que sem duvida possibilitara melhoria na qualidade da atencao medica.
Conclui-se que a MBE e um dispositivo para a administracao do conhecimento da pratica clinica. Este recurso fornece estrutura conceitual para resolver problemas clinicos e aproxima os dados de pesquisa clinica da pratica medica.
A metodologia basica para a pratica da MBE integra a formulacao de uma questao clinica bem estruturada, a busca eficiente das melhores evidencias disponiveis, a avaliacao rigorosa dos resultados dos estudos e a aplicacao desta a um paciente especifico.
O entendimento e a metodologia de MBE devem ser integrados a intuicao e aos bons julgamentos clinicos, bem como as competencias tecnicas proprias, a formacao academica, a experiencia profissional, a sintonia e as habilidades de comunicacao com o paciente.
A analise e integracao da pesquisa clinica e um fundamento importante, mas nao exclusivo, na tomada de decisao no trabalho clinico de cuidado diario. Somente na medida em que a pesquisa clinica, como melhor evidencia externa, e a pratica clinica, como experiencia propria validada, enriquecem-se e se complementam de forma mutua, e possivel discorrer sobre a MBE autentica.
Referencias
ALENCAR NETO, J. N. Manual De Medicina Baseada em Evidencias. Bahia: Editora Sanar, 2021.
BRASIL. Guia Pratico de Medicina Baseada em Evidencias. Organizacao Regina El Dib. 1. ed. Sao Paulo: Cultura Academica, 2014.
BRASIL. Medicina Baseada em Evidencias: uma interpretacao critica e implicacoes para as politicas publicas. Texto para discussao / Instituto de Pesquisa Economica Aplicada. Brasilia: Rio de Janeiro: Ipea, 2021.
DRUMMOND, J. P. (coord.). Fundamentos da medicina baseada em evidencias: teoria e pratica. 2. ed. Sao Paulo: Atheneu, 2014.
GREENHALGH, T. Como ler artigos cientificos: a medicina baseada em evidencias. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2015.
KAURA, A. Medicina Baseada em Evidencia: leitura e redacao de textos clinicos. Sao Paulo: Elsevier, 2016.
PEREIRA, M. G.; GALVAO, T. F.; SILVA, M. T. Saude Baseada em Evidencias. Rio de Janeiro: Guanabara-Koogan, 2016.
STEIN, A. I. Medicina baseada em evidencias aplicada a pratica do medico de familia e comunidade. In: GUSSO, G.; LOPES, J. M. C.; DIAS, L. C. (org). Tratado de Medicina de Familia e Comunidade. Porto Alegre: ARTMED, 2019.
Referencia ABNT
LUCENA, Debora M. F. et al.. Medicina Baseada em Evidencias: Concepcoes e Finalidades. *In*: FLAUZINO, Jhonas Geraldo Peixoto (org.). **Medicina e Avancos da Pesquisa Basica e Clinica — Vol. 2**. Ponta Grossa: Atena Editora, 2022. DOI: [10.22533/at.ed.6852229063](https://doi.org/10.22533/at.ed.6852229063).
Links Externos
- [Acessar artigo original (DOI)](https://doi.org/10.22533/at.ed.6852229063)
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Perguntas Frequentes
**O que e medicina baseada em evidencias?**
E a utilizacao consciente, explicita e fundamentada dos melhores indicadores cientificos disponiveis para auxiliar nas tomadas de decisoes sobre os pacientes, integrando experiencia clinica individual com os melhores dados objetivos.
**Quando surgiu o termo MBE?**
O termo Medicina Baseada em Evidencias foi empregado pela primeira vez em 1991, por Gordon Guyatt, no Canada.
**A MBE substitui a experiencia clinica do medico?**
Nao. A MBE nao substitui a competencia clinica, o julgamento responsavel ou a relacao medico-paciente. Ela deve ser integrada a intuicao e aos bons julgamentos clinicos.
**Em qual obra este capitulo foi publicado?**
O capitulo integra o livro *Medicina e Avancos da Pesquisa Basica e Clinica — Vol. 2*, publicado pela Atena Editora em 2022, com DOI 10.22533/at.ed.685222906.